Por Marcelo Pereira
No momento em que este post é produzido, começa a passar na Globo o último capítulo da novela “Viver a Vida”, do autor Manoel Carlos.
A Globo vai negar até o final da existência, seja a dela ou a sua. Mas o fato é que “Viver a Vida” foi um dos maiores fracassos da teledramaturgia da emissora no horário nobre, nos últimos anos. E olha que não foi por falta de esforço, pois a Vênus Platinada utilizou de todas as armas e artimanhas que tinha para fazer o folhetim decolar: colocou todos (todos mesmo, sem exceção) os programas da casa para divulgar, do Faustão e Ana Maria Braga, até o Vídeo Show (todo dia tinha alguma coisa sobre a novela no programa da tarde). Artilharia pesada mesmo. Mas não teve jeito, o Maneco vai ter que colocar esse embaraço no currículo.
A pergunta que os executivos da emissora devem estar se fazendo (e que é minha curiosidade também) é: “onde foi que erramos?”. Na minha opinião, entre inúmeros fatores, vou destacar alguns:
Estória fraca – Em todos os livros/oficinas/palestras/bate papos que tive a oportunidade de ver/participar, uma frase é recorrente: “Roteiro bom tem que ter conflito”. E “Viver a Vida” não tem. Até onde eu vi (porque a coisa ficou chata ao ponto de ter coisas melhores pra fazer), a novela se resumiu a belas imagens do Leblon e Búzios, e pessoas tomando nababescos cafés da manhã (sem que tenha ao menos um personagem obeso, se levar em conta a quantidade de comida que foi utilizada... enfim...).
Um sintoma da fragilidade da estória foi o sumiço da “protagonista” Taís Araújo, mal escalada como uma das “Helenas” do autor. Minha impressão é a de que “forçaram uma barra” para ter a primeira negra protagonista do horário nobre da emissora e deram um tiro no pé. Ela é boa atriz, mas nesse papel ela foi mal demais.
Voltando aos conflitos... no início da novela, parecia claro que haveria conflito entre Helena (Taís Araújo) e Tereza (Lília Cabral, excelente atriz), por conta do acidente de Luciana (Alinne Moraes). O acidente aconteceu, e... e nada. Nem revolta da mãe, nem vingança da ex-modelo tetraplégica, nem martírio da mocinha, nada. Tinha possibilidades de explorar a criminalidade e a relação rico "versus" pobre (personagens Sandrinha e Benê), a bulimia com alcoolismo e anorexia da Renata (Barbara Paz) e a pressão do mundo da moda, etc... E nada de conflito, em 8 meses de novela. Aí, chego ao outro “fator do fracasso”, que eu chamo de:
Cúpula de Executivos da Globo – Novela tem que dar IBOPE. Fato. É um produto comercial, e tem que se pagar. “Viver a Vida” se pagou, como todas as outras, claro. Mas, a longo prazo, desempenhos pífios como este podem prejudicar produtos futuros. Investidores podem começar a “pensar duas vezes” antes de investir, ou chorar mais no valor do merchandising (que não é barato, diga-se de passagem).
E aí, quando uma novela do porte de “Viver a Vida” começa a azedar, o que se faz? Muda-se a estória, oras! Como novela é uma “obra aberta”, ou seja, tem início definido, porém o meio e o final podem mudar, começa-se a mexer na estrutura da novela.
No momento em que este post é produzido, começa a passar na Globo o último capítulo da novela “Viver a Vida”, do autor Manoel Carlos.
A Globo vai negar até o final da existência, seja a dela ou a sua. Mas o fato é que “Viver a Vida” foi um dos maiores fracassos da teledramaturgia da emissora no horário nobre, nos últimos anos. E olha que não foi por falta de esforço, pois a Vênus Platinada utilizou de todas as armas e artimanhas que tinha para fazer o folhetim decolar: colocou todos (todos mesmo, sem exceção) os programas da casa para divulgar, do Faustão e Ana Maria Braga, até o Vídeo Show (todo dia tinha alguma coisa sobre a novela no programa da tarde). Artilharia pesada mesmo. Mas não teve jeito, o Maneco vai ter que colocar esse embaraço no currículo.
A pergunta que os executivos da emissora devem estar se fazendo (e que é minha curiosidade também) é: “onde foi que erramos?”. Na minha opinião, entre inúmeros fatores, vou destacar alguns:
Estória fraca – Em todos os livros/oficinas/palestras/bate papos que tive a oportunidade de ver/participar, uma frase é recorrente: “Roteiro bom tem que ter conflito”. E “Viver a Vida” não tem. Até onde eu vi (porque a coisa ficou chata ao ponto de ter coisas melhores pra fazer), a novela se resumiu a belas imagens do Leblon e Búzios, e pessoas tomando nababescos cafés da manhã (sem que tenha ao menos um personagem obeso, se levar em conta a quantidade de comida que foi utilizada... enfim...).
Um sintoma da fragilidade da estória foi o sumiço da “protagonista” Taís Araújo, mal escalada como uma das “Helenas” do autor. Minha impressão é a de que “forçaram uma barra” para ter a primeira negra protagonista do horário nobre da emissora e deram um tiro no pé. Ela é boa atriz, mas nesse papel ela foi mal demais.
Voltando aos conflitos... no início da novela, parecia claro que haveria conflito entre Helena (Taís Araújo) e Tereza (Lília Cabral, excelente atriz), por conta do acidente de Luciana (Alinne Moraes). O acidente aconteceu, e... e nada. Nem revolta da mãe, nem vingança da ex-modelo tetraplégica, nem martírio da mocinha, nada. Tinha possibilidades de explorar a criminalidade e a relação rico "versus" pobre (personagens Sandrinha e Benê), a bulimia com alcoolismo e anorexia da Renata (Barbara Paz) e a pressão do mundo da moda, etc... E nada de conflito, em 8 meses de novela. Aí, chego ao outro “fator do fracasso”, que eu chamo de:
Cúpula de Executivos da Globo – Novela tem que dar IBOPE. Fato. É um produto comercial, e tem que se pagar. “Viver a Vida” se pagou, como todas as outras, claro. Mas, a longo prazo, desempenhos pífios como este podem prejudicar produtos futuros. Investidores podem começar a “pensar duas vezes” antes de investir, ou chorar mais no valor do merchandising (que não é barato, diga-se de passagem).
E aí, quando uma novela do porte de “Viver a Vida” começa a azedar, o que se faz? Muda-se a estória, oras! Como novela é uma “obra aberta”, ou seja, tem início definido, porém o meio e o final podem mudar, começa-se a mexer na estrutura da novela.
Resultado? Personagens secundários (mas que caem no gosto do povo) começam a ter mais destaque que os protagonistas, casos de Maradona (Mário José Paz, argentino naturalizado brasileiro, morador de Búzios há 15 anos, que entrou na novela pra fazer uma ponta e acabou ficando porque “caiu nas graças” do telespectador); e do triangulo amoroso entre Betina (Letícia Spiller), Malu (Camila Morgado) e Gustavo (Marcello Airoldi), que era realmente engraçado, mas de tanta exposição, acabou cansando. Isso só para citar alguns exemplos.
Surpresa mesmo, e o que no final é o que vai ficar pra história, foi o desempenho de Mateus Solano. Excelente ator, já mostrava isso no seriado “Maísa” e confirmou agora, interpretando os gêmeos Miguel e Jorge com bastante talento e propriedade.
Será que era essa a estória que o Manoel Carlos queria contar desde o princípio? Será que houve intervenção da cúpula da emissora no trabalho dele? Ou será que simplesmente aquele Manoel Carlos, que escreveu “Laços de Família” e a cena antológica da personagem Camila (Carolina Dieckmann) raspando a cabeça, não existe mais?
Perguntas e mais perguntas, que só vocês podem ajudar a responder.
Agora chega. Na segunda-feira eu falo sobre a estreia de “Passione”.
Abraços!
See ya!
4 Elementos – Fábrica de Ideias
Surpresa mesmo, e o que no final é o que vai ficar pra história, foi o desempenho de Mateus Solano. Excelente ator, já mostrava isso no seriado “Maísa” e confirmou agora, interpretando os gêmeos Miguel e Jorge com bastante talento e propriedade.
Será que era essa a estória que o Manoel Carlos queria contar desde o princípio? Será que houve intervenção da cúpula da emissora no trabalho dele? Ou será que simplesmente aquele Manoel Carlos, que escreveu “Laços de Família” e a cena antológica da personagem Camila (Carolina Dieckmann) raspando a cabeça, não existe mais?
Perguntas e mais perguntas, que só vocês podem ajudar a responder.
Agora chega. Na segunda-feira eu falo sobre a estreia de “Passione”.
Abraços!
See ya!
4 Elementos – Fábrica de Ideias
Ps.: agora são 22:25hs. Todas as mulheres estão grávidas, todo mundo vai casar (ao mesmo tempo) e ser feliz. E ninguém vai ser punido, pois não tem vilão nessa estória do Maneco.
Chato pra ca**lho, Maneco!
9 Comenta aqui!:
A grande falha de Viver a Vida foi não seguir a sinopse. Nada do que era pré-determinado aconteceu. Havia grandes histórias para se desenrolar, mas morreram no caminho, sabe-se lá por que. O mesmo aconteceu há alguns anos, em Páginas da Vida. Mas, aqui, Maneco se superou em passar 8 meses mostrando NADA.
Pois é, Elton...
Essa foi a minha pergunta também: será que era isso que o Maneco tinha programado pra contar? Pra mim tem cheiro de intervenção no trabalho dele.
Não sei se o mesmo aconteceria com alguém de personalidade mais forte, como o Aguinaldo Silva, por exemplo. Sei lá...
Valeu pelo comentário, de verdade.
Abs!
Marcelo Pereira
4 Elementos - Fábrica de Ideias
Além de tudo que você escreveu, eu acrescentaria uma coisa:
Maneco tem uma característica que me deixa pasmo! Comentei isso num posto do meu blog:
"Enquanto a maioria dos autores se esmera para trazer novidades a cada trabalho, Maneco insiste na mesmice: o Leblon, a classe alta abastada e fútil, os empregados de um mundo de fantasia e por aí vai. Além das Helenas, Morettis, Carlos e Martas, presentes em quase todos os seus trabalhos, a rotina se repete nas tramas: o garanhão sessentão “pegador”, a ninfeta rebelde, a ricaça fútil, a criança precoce e chata (que é um péssimo exemplo dos nossos filhos), o alcoólatra bonzinho, o jardineiro devotado... Enfim, seus personagens apenas trocam de atores e situações."
Espero sinceramente que Maneco se dedique às minisséries (Presença de Anita e Maysa foram maravilhosas) e deixe o horário das 8 para alguém com mais gás e que abram brechas para tantos outros roteiristas que vivem em busca de uma oportunidade.
Li os comentários dos colegas e voltei para dar um pitaco.
Eu não acredito que houve interferência da direção da emissora no trabalho do Maneco. Acompanho as notícias da TV diariamente e nunca vi nada que levasse à tal conclusão. Nem mesmo capítulos atrasados, ou o caso da menina-vilã, que acredito ter sido o mais grave embraraço enfrentado pela novela,em nenhum desses casos a emissora acenou com cerceamento.
No que haveria de intervir?
A única coisa que me emocionou nessa novela foi o depoimento do último capítulo seguido do maestro regendo a Nona Sinfonia de Beethoven, acho que foi o fechamento mais emocionante dos últimos tempos. Foi o que valeu ter esperado duas horas de enrolação...
Quanto a trama, não acompanhei com afinco, mas pelo que vi a principal mudança era assumir logo Luciana como protagonista (mesmo que ela passasse a se chamar Helena), e criar outros conflitos interessantes, porque a questão de Tereza x Helena era fraca, por mais que mãe e filha ficassem com raiva, culpar a moça pelo acidente era algo forçado, foi uma fatalidade, outras pessoas estavam no ônibus e não ficaram tetraplégicas, e se era o destino de Luciana, ela sofreria o acidente de outra forma, sei lá. Não tem força dramática suficiente para segurar tantos capítulos, tinha que ter outras complicações.
Fala, Marcos! Como sempre, um prazer sua presença aqui.
Marcos, nós sabemos que uma novela, quando estreia, já tem um certo número de capítulos escritos, e outros tantos "de frente", ou seja, já gravados/editados e prontos para exibição. Inclusive para lidar com os imprevistos e tal. Sendo assim, não acredito que seja impossível mudar o sentido de uma trama que não esteja dando IBOPE, tanto para o bem quanto para o mal. E acredito também que nenhuma notícia de intervenções (qdo digo intervenções leia-se "instruções") seriam veiculadas na TV, nem mesmo nestes programas mequetrefes de fofoca.
Mas que deve existir uma pressão da diretoria para "dar mais destaque" para A ou B, isso não tenho dúvida. É que a gente nem fica sabendo, mas poderia apostar que tem. E é por isso que eu perguntei: será que era essa a estória que o Maneco queria contar desde o começo? Ou foi "convidado" a alterar, em nome do IBOPE?
Abs! E apareça sempre, man!
Marcelo Pereira
4 Elementos - Fábrica de Ideias
Bem comentado pelo Marcos Silvério.
Definitivamente Maneco não vem tendo sucesso com novela das 8. E bem citado que ele deveria se dedicar às miniséries, já que são menores.
É lamentável, mas fato, a emissora se preocupar com IBOPE, óbvio, novela hoje é comércio. Mas ao meu ver é lamentável por subestimar a inteligência do telespectador. Não está dando IBOPE? Dane-se, vamos mudar a história. Aí eu pergunto: "E o comprometimento com o telespectador através das primeiras chamadas?" Dane-se, o que importa é o IBOPE.
Bom, eu deixei de assistir às novelas porque não há mais novidade, não há mais originalidade e isso me deprime. Mas infelizmente, o povo que trabalha e está cansado, quer mais é chegar em casa, ligar a TV e descansar. Dane-se a história, dane-se o autor, que seja porcaria mesmo... A essas alturas, pra quê pensar?
Eu adoro pingar gotas de sarcasmo.
Primeira vez comentando aqui, abraço!
Comentário técnico pertinente: o termo "estória" para designar ficção é incorreto. A raiz do termo é arcaica e alguns autores célebres, como Guimarães Rosa, por exemplo, até chegaram a empregá-lo e estimular seu uso. Diferente do inglês, entretanto, na língua portuguesa o correto é empregar-se o termo "história" tanto para designar ficção quanto para se referir a fatos históricos. Basta consultar qualquer dicionário por aí. O Aurélio de bolso, por exemplo, sequer traz referência ao termo "estória" dentre seus verbetes.
Vanessa! Obrigado pelo primeiro comentário (de muitos, que espero se repitam).
E amigo(a) anônimo(a), valeu pela dica do "estória e história". Vc tem razão. Vamos utilizar "história" daqui por diante, valeu?
Abs!
Marcelo Pereira
4 Elementos - Fábrica de Ideias
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