sexta-feira, 14 de maio de 2010

A agonizante morte de Viver a Vida.

Por Marcelo Pereira

No momento em que este post é produzido, começa a passar na Globo o último capítulo da novela “Viver a Vida”, do autor Manoel Carlos.

A Globo vai negar até o final da existência, seja a dela ou a sua. Mas o fato é que “Viver a Vida” foi um dos maiores fracassos da teledramaturgia da emissora no horário nobre, nos últimos anos. E olha que não foi por falta de esforço, pois a Vênus Platinada utilizou de todas as armas e artimanhas que tinha para fazer o folhetim decolar: colocou todos (todos mesmo, sem exceção) os programas da casa para divulgar, do Faustão e Ana Maria Braga, até o Vídeo Show (todo dia tinha alguma coisa sobre a novela no programa da tarde). Artilharia pesada mesmo. Mas não teve jeito, o Maneco vai ter que colocar esse embaraço no currículo.

A pergunta que os executivos da emissora devem estar se fazendo (e que é minha curiosidade também) é: “onde foi que erramos?”. Na minha opinião, entre inúmeros fatores, vou destacar alguns:

Estória fraca – Em todos os livros/oficinas/palestras/bate papos que tive a oportunidade de ver/participar, uma frase é recorrente: “Roteiro bom tem que ter conflito”. E “Viver a Vida” não tem. Até onde eu vi (porque a coisa ficou chata ao ponto de ter coisas melhores pra fazer), a novela se resumiu a belas imagens do Leblon e Búzios, e pessoas tomando nababescos cafés da manhã (sem que tenha ao menos um personagem obeso, se levar em conta a quantidade de comida que foi utilizada... enfim...).

Um sintoma da fragilidade da estória foi o sumiço da “protagonista” Taís Araújo, mal escalada como uma das “Helenas” do autor. Minha impressão é a de que “forçaram uma barra” para ter a primeira negra protagonista do horário nobre da emissora e deram um tiro no pé. Ela é boa atriz, mas nesse papel ela foi mal demais.

Voltando aos conflitos... no início da novela, parecia claro que haveria conflito entre Helena (Taís Araújo) e Tereza (Lília Cabral, excelente atriz), por conta do acidente de Luciana (Alinne Moraes). O acidente aconteceu, e... e nada. Nem revolta da mãe, nem vingança da ex-modelo tetraplégica, nem martírio da mocinha, nada. Tinha possibilidades de explorar a criminalidade e a relação rico "versus" pobre (personagens Sandrinha e Benê), a bulimia com alcoolismo e anorexia da Renata (Barbara Paz) e a pressão do mundo da moda, etc... E nada de conflito, em 8 meses de novela. Aí, chego ao outro “fator do fracasso”, que eu chamo de:

Cúpula de Executivos da Globo – Novela tem que dar IBOPE. Fato. É um produto comercial, e tem que se pagar. “Viver a Vida” se pagou, como todas as outras, claro. Mas, a longo prazo, desempenhos pífios como este podem prejudicar produtos futuros. Investidores podem começar a “pensar duas vezes” antes de investir, ou chorar mais no valor do merchandising (que não é barato, diga-se de passagem).

E aí, quando uma novela do porte de “Viver a Vida” começa a azedar, o que se faz? Muda-se a estória, oras! Como novela é uma “obra aberta”, ou seja, tem início definido, porém o meio e o final podem mudar, começa-se a mexer na estrutura da novela.
Resultado? Personagens secundários (mas que caem no gosto do povo) começam a ter mais destaque que os protagonistas, casos de Maradona (Mário José Paz, argentino naturalizado brasileiro, morador de Búzios há 15 anos, que entrou na novela pra fazer uma ponta e acabou ficando porque “caiu nas graças” do telespectador); e do triangulo amoroso entre Betina (Letícia Spiller), Malu (Camila Morgado) e Gustavo (Marcello Airoldi), que era realmente engraçado, mas de tanta exposição, acabou cansando. Isso só para citar alguns exemplos.

Surpresa mesmo, e o que no final é o que vai ficar pra história, foi o desempenho de Mateus Solano. Excelente ator, já mostrava isso no seriado “Maísa” e confirmou agora, interpretando os gêmeos Miguel e Jorge com bastante talento e propriedade.

Será que era essa a estória que o Manoel Carlos queria contar desde o princípio? Será que houve intervenção da cúpula da emissora no trabalho dele? Ou será que simplesmente aquele Manoel Carlos, que escreveu “Laços de Família” e a cena antológica da personagem Camila (Carolina Dieckmann) raspando a cabeça, não existe mais?

Perguntas e mais perguntas, que só vocês podem ajudar a responder.

Agora chega. Na segunda-feira eu falo sobre a estreia de “Passione”.

Abraços!

See ya!
4 Elementos – Fábrica de Ideias

Ps.: agora são 22:25hs. Todas as mulheres estão grávidas, todo mundo vai casar (ao mesmo tempo) e ser feliz. E ninguém vai ser punido, pois não tem vilão nessa estória do Maneco.

Chato pra ca**lho, Maneco!

9 Comenta aqui!:

Elton Menezes Severo disse...

A grande falha de Viver a Vida foi não seguir a sinopse. Nada do que era pré-determinado aconteceu. Havia grandes histórias para se desenrolar, mas morreram no caminho, sabe-se lá por que. O mesmo aconteceu há alguns anos, em Páginas da Vida. Mas, aqui, Maneco se superou em passar 8 meses mostrando NADA.

4 Elementos - Fábrica de Ideias disse...

Pois é, Elton...

Essa foi a minha pergunta também: será que era isso que o Maneco tinha programado pra contar? Pra mim tem cheiro de intervenção no trabalho dele.

Não sei se o mesmo aconteceria com alguém de personalidade mais forte, como o Aguinaldo Silva, por exemplo. Sei lá...

Valeu pelo comentário, de verdade.

Abs!

Marcelo Pereira
4 Elementos - Fábrica de Ideias

Marcos Silvério disse...

Além de tudo que você escreveu, eu acrescentaria uma coisa:

Maneco tem uma característica que me deixa pasmo! Comentei isso num posto do meu blog:

"Enquanto a maioria dos autores se esmera para trazer novidades a cada trabalho, Maneco insiste na mesmice: o Leblon, a classe alta abastada e fútil, os empregados de um mundo de fantasia e por aí vai. Além das Helenas, Morettis, Carlos e Martas, presentes em quase todos os seus trabalhos, a rotina se repete nas tramas: o garanhão sessentão “pegador”, a ninfeta rebelde, a ricaça fútil, a criança precoce e chata (que é um péssimo exemplo dos nossos filhos), o alcoólatra bonzinho, o jardineiro devotado... Enfim, seus personagens apenas trocam de atores e situações."

Espero sinceramente que Maneco se dedique às minisséries (Presença de Anita e Maysa foram maravilhosas) e deixe o horário das 8 para alguém com mais gás e que abram brechas para tantos outros roteiristas que vivem em busca de uma oportunidade.

Marcos Silvério disse...

Li os comentários dos colegas e voltei para dar um pitaco.

Eu não acredito que houve interferência da direção da emissora no trabalho do Maneco. Acompanho as notícias da TV diariamente e nunca vi nada que levasse à tal conclusão. Nem mesmo capítulos atrasados, ou o caso da menina-vilã, que acredito ter sido o mais grave embraraço enfrentado pela novela,em nenhum desses casos a emissora acenou com cerceamento.

No que haveria de intervir?

Amanda Aouad disse...

A única coisa que me emocionou nessa novela foi o depoimento do último capítulo seguido do maestro regendo a Nona Sinfonia de Beethoven, acho que foi o fechamento mais emocionante dos últimos tempos. Foi o que valeu ter esperado duas horas de enrolação...

Quanto a trama, não acompanhei com afinco, mas pelo que vi a principal mudança era assumir logo Luciana como protagonista (mesmo que ela passasse a se chamar Helena), e criar outros conflitos interessantes, porque a questão de Tereza x Helena era fraca, por mais que mãe e filha ficassem com raiva, culpar a moça pelo acidente era algo forçado, foi uma fatalidade, outras pessoas estavam no ônibus e não ficaram tetraplégicas, e se era o destino de Luciana, ela sofreria o acidente de outra forma, sei lá. Não tem força dramática suficiente para segurar tantos capítulos, tinha que ter outras complicações.

4 Elementos - Fábrica de Ideias disse...

Fala, Marcos! Como sempre, um prazer sua presença aqui.

Marcos, nós sabemos que uma novela, quando estreia, já tem um certo número de capítulos escritos, e outros tantos "de frente", ou seja, já gravados/editados e prontos para exibição. Inclusive para lidar com os imprevistos e tal. Sendo assim, não acredito que seja impossível mudar o sentido de uma trama que não esteja dando IBOPE, tanto para o bem quanto para o mal. E acredito também que nenhuma notícia de intervenções (qdo digo intervenções leia-se "instruções") seriam veiculadas na TV, nem mesmo nestes programas mequetrefes de fofoca.

Mas que deve existir uma pressão da diretoria para "dar mais destaque" para A ou B, isso não tenho dúvida. É que a gente nem fica sabendo, mas poderia apostar que tem. E é por isso que eu perguntei: será que era essa a estória que o Maneco queria contar desde o começo? Ou foi "convidado" a alterar, em nome do IBOPE?

Abs! E apareça sempre, man!

Marcelo Pereira
4 Elementos - Fábrica de Ideias

Vanessa disse...

Bem comentado pelo Marcos Silvério.
Definitivamente Maneco não vem tendo sucesso com novela das 8. E bem citado que ele deveria se dedicar às miniséries, já que são menores.

É lamentável, mas fato, a emissora se preocupar com IBOPE, óbvio, novela hoje é comércio. Mas ao meu ver é lamentável por subestimar a inteligência do telespectador. Não está dando IBOPE? Dane-se, vamos mudar a história. Aí eu pergunto: "E o comprometimento com o telespectador através das primeiras chamadas?" Dane-se, o que importa é o IBOPE.

Bom, eu deixei de assistir às novelas porque não há mais novidade, não há mais originalidade e isso me deprime. Mas infelizmente, o povo que trabalha e está cansado, quer mais é chegar em casa, ligar a TV e descansar. Dane-se a história, dane-se o autor, que seja porcaria mesmo... A essas alturas, pra quê pensar?

Eu adoro pingar gotas de sarcasmo.
Primeira vez comentando aqui, abraço!

Anônimo disse...

Comentário técnico pertinente: o termo "estória" para designar ficção é incorreto. A raiz do termo é arcaica e alguns autores célebres, como Guimarães Rosa, por exemplo, até chegaram a empregá-lo e estimular seu uso. Diferente do inglês, entretanto, na língua portuguesa o correto é empregar-se o termo "história" tanto para designar ficção quanto para se referir a fatos históricos. Basta consultar qualquer dicionário por aí. O Aurélio de bolso, por exemplo, sequer traz referência ao termo "estória" dentre seus verbetes.

4 Elementos - Fábrica de Ideias disse...

Vanessa! Obrigado pelo primeiro comentário (de muitos, que espero se repitam).

E amigo(a) anônimo(a), valeu pela dica do "estória e história". Vc tem razão. Vamos utilizar "história" daqui por diante, valeu?

Abs!

Marcelo Pereira
4 Elementos - Fábrica de Ideias